01-Fogo Gélido

[INÍCIO AGUARDANDO COMPLEMENTO]

“Hoje completam-se doze anos desde que parti…”

—Diário de Viagem de Zel Khalian, o restante da página foi rasgado.

A vida de Zel mudara completamente após sua curta jornada pelo mundo dos homens. Estivera em locais de poder, bibliotecas imensas, cidades incríveis, e mesmo assim seu coração não deixara, nem por um instante, que esquecesse do mundo ao qual pertencia. O mundo dos elfos sempre foi bastante diferente, mais belo, mais mágico, mais lento, com uma sensação menos mortal… O mundo dos homens era veloz, difícil de acompanhar, mas uma vez que se acostuma com seu ritmo, é difícil deixá-lo e voltar a viver na lentidão dos tempos passados. É como um fogo que arde no peito, um desejo de viver tudo de uma só vez, pois o tempo dos homens é curto demais, algo que os elfos tentam acompanhar quando a eles se unem em busca de novos desafios

Agora Zel estava, enfim, retornando de sua jornada. Esperava poder contar as ótimas novidades a seus pais o mais depressa possível, ainda que a pressa não fosse um atributo valorizado entre os elfos.  Sentiu, ao tocar o alabastro frio das escadarias que serpenteavam ao redor da grande árvore, o quanto suas mãos estavam quentes. Subiu velozmente e logo já estava na plataforma, soltando a corda para poder utilizar o transporte até a copa da grande árvore branca. Talvez tenha sido apenas neste momento que Zel percebeu realmente o que estava acontecendo. Talvez tenha sido naquele instante que seus olhos se fecharam e uma silenciosa lágrima enxeu seus olhos e correu por sua face. Foi então que ele viu aquele elfo negro pela primeira vez. Com seu sorriso sarcástico, a Lâmina da Lua em suas mãos, banhada no sangue de seus pais. Ante o poder da grandiosa magia que emanava de seu oponente, Zel sentiu-se fraco e impotente, sua ira crescente competia com seu desespero. Então o elfo negro lhe sorriu largamente, fez uma reverência, e desapareceu.

( *   *   * )

A chuva molhava seu corpo, lavando-o, limpando-o, após participar dos ritos de transição de seus pais. Por dentro, havia uma mancha em sua alma. A floresta estava silenciosa naquela noite, havia apenas o som incessante da água, como um pranto não declarado pelo luto de tão nobres criaturas, tão devotos e fiéis servos dos deuses. Em seu íntimo Zel tinha apenas um pensamento: vingança.

Desde aquela noite chuvosa não houve um dia sequer em que o elfo tenha deixado de reforçar seu juramento de vingança contra aquele inimigo, aquele elfo negro. Jurou naquela noite que iria devolver o ítem roubado às mãos corretas. Jurou também que sua alma não descansaria enquanto o elfo negro vivesse. Partiu novamente, ainda antes do raiar do dia. Ainda não imaginava nessa época que suas buscas o levariam ao Norte, em companhia de um velho amigo de aventuras: Rayon.

( *   *   * )

“A Espinha do Mundo. É como chamam este conjunto de enormes montanhas com seu topo eternamente branco. Talvez porque, vista de longe, a cordilheira me faça imaginar as costas de um animal impossivelmente grande. Talvez porque já podíamos vê-la desde a última dezena, a diferença é que agora podemos ver um pouco mais do que apenas os picos congelados. Um animal realmente imenso, se me perguntarem o que penso! Os ancestrais de meu povo construiram grandes impérios nesta região. Imensas câmaras sob as montanhas, de acordo as histórias de meus pais, repletas de ouro e jóias, além de um excelente vinho! Sim senhor! Se eu pudesse recuperar alguma dessas riquezas ou o vinho, certamente ficaria com o vinho. Nesse frio? É muito melhor pra esquentar!”

—Diário de viagem de Rayon, sobre sua primeira visão da Espinha do Mundo

15, Mirtul – 1372 CV

“Foram longas semanas de viagem, que seríam impossíveis sem as magias de Rayon. Deve ser isso o que chamam de destino. Mas enfim conseguimos atingir o platô, o que vai nos dar algum tempo para descansar. Isso será essencial para que o clérigo possa fazer suas preces e pedir as devidas bençãos a seu deus. Agora precisamos buscar abrigo, pois o sol está prestes a se pôr…”

Subitamente os pensamentos de Zel são suprimidos, diante de uma visão distante, trazida através de sua percepção élfica: a centenas de metros do platô, em meio à neve e ao gelo da íngreme subida, dois corpos semi-despidos parecem lutar para manterem-se aquecidos. Imediatamente Zel avisa Rayon e, juntos, eles seguem rapidamente em direção ao incidente.

Ao aproximarem-se o suficiente para terem uma dimensão mais apropriada da situação, ambos percebem as grandes asas da fêmea humanóide e isto lhes deixa claro que ela não é humana, provavelmente algum tipo de celestial ou outro ser divino, conforme indicam as penas brancas levemente recurvadas. Ao perceber a aproximação ambos se voltam para os heróis e clamam por auxílio para aliviar sua dor e seu desespero. Pela escassez de suas roupas, fica fácil deduzir que devem ter chegado até ali utilizando algum meio mágico. Então, quando estão há pouco mais de 10 metros, o homem fixa seus olhos miúdos sobre os companheiros, sua pele de cor ligeiramente amarelada provoca um olhar curioso de Zel e um grunhido de Rayon. O homem então faz um gesto cortês, enquanto os companheiros permanecem com as armas em punho, ainda que dúbios quanto à sua necessidade nesta situação. Ele então se apresenta.

“—Com licença meus caros, mas eu e minha… hmmm… subordinada, estamos com muito frio e perdidos… viemos em uma missão… uma questão de vida… ou morte.”

[CONTINUA…]

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