O Legado do Rei Caído

Herança, parte 1

O maior reino que já existiu, a maior glória alcançada desde o surgimento dos anões na forja do grande criador. Uma visão de grandeza tão impressionante que faria a própria jóia do norte empalidecer ante sua beleza… e isso era tudo o que havia restado de toda essa grandeza: ruínas. Estas eram as ruínas de Gharraghaur.

Golgor viajara durante três meses ao lado de seu fiel Sam, cruzando estradas raramente utilizadas, evitando rotas mais comerciais, disfarçando-se como um simples andarilho. Sam, seu pônei, tinha sido um companheiro inestimável durante todo esse tempo. Era quase como se ele realmente pudesse entender tudo o que Golgor dizia, mas é claro que o anão mais comentava sobre as glórias de seus antepassados, sobre a qualidade da arte que criavam e sobre a perfeição de seu hidromel do que qualquer outra coisa. Quando o antigo dono decidira vender o pônei ao anão, certamente imaginou que ele não teria como pagar um valor tão exorbitante e acabou surpreendendo-se quando ele prontamente aceitou e pagou com algumas gemas e moedas. Percebendo que não se tratava de uma pessoa qualquer, disse apenas:

“Ele não gosta de ser tratado como um animal, o Sam tem sido um bom companheiro, rebelde às vezes, mas muito corajoso. Cuide bem dele senhor.”

Agora haviam viajado mais de 800 quilômetros desde Idernost, através de extensas planícies, algumas colinas, margeando rios e até mesmo penetrando alguns vales, para finalmente emergir entre despenhadeiros e uma grande floresta, que ele acreditou tratar-se da Mata Escondida. Foi naquele momento que Golgor e Sam puderam contemplar, pela primeira vez em suas vidas, toda a grandeza das montanhas do norte, onde os ancestrais da casa de Kronum haviam vivido. Segurando sua barba, Golgor fez uma reverência. Mesmo o Príncipe Herdeiro da Casa de Kronum não passava de uma pequena rocha imperfeita ante a grandeza da criação dos deuses…

As grandes montanhas perdiam-se em direção ao céu daquele final de primavera. Apesar do clima mais ameno daquela época a Espinha ainda era um desafio à altura dos feitos do Príncipe e assim ele e Sam continuaram sua jornada. Durante quinze dias atravessaram planícies, cruzaram o rio e avançaram em direção ao cume das montanhas, onde buscaram a antiga rota comercial.

A Espinha do Mundo

Havia um nevoeiro denso no sopé da montanha e foi difícil definir o horário até que se pudesse ver mais claramente, o que só aconteceu depois do terceiro dia de subida. O ar rarefeito fez com que diminuíssem levemente o passo.

Naquele dia uma carroça solitária cruzou por eles, impulsionada por dois belos cavalos negros e conduzida por um homem trajando mantos e uma máscara de couro. Ele aconselhou Golgor a deixar a montanha antes da sétima lua, pois uma mudança estaria prestes a ocorrer… uma mudança nada positiva, segundo ele. O próprio condutor ficou se perguntando durante muito tempo sobre a razão de ter dado aquele conselho a um estranho, já que seu pensamento mais comum teria sido o de eliminá-lo, assim como fizera tantas outras vezes. Sete dias depois, Manshoon foi morto por seus antigos aliados, dando início ao que ficaria conhecido como Guerras de Manshoon… mas o Príncipe nunca participou e talvez sequer tenha ficado sabendo desses eventos ou sobre quem era o condutor daquela carroça. Ele apenas seguiu viagem ao lado de Sam alcançando, algumas horas depois, os antigos portões daquilo que restou de Gharraghaur.

As portas ainda eram imponentes, como se fossem necessários muitos homens para movê-las, mas bastou uma fração da força de Golgor para que elas se abrissem com apenas alguns estalos. Alguns fragmentos de rocha soltaram-se, diversos metros acima, caindo com mais ruído do que a própria porta. O Príncipe então voltou alguns metros e se aproximou de Sam.

“Meu amigo, acho que será melhor você esperar aqui fora até que eu retorne, será mais seguro pra você do que me acompanhar.”

Com um olhar de compreensão, o animal baixou a cabeça e se deixou amarrar em uma árvore ali perto. Golgor deu algumas voltas ao redor do pescoço de Sam ao mesmo tempo em que era tomado por uma estranha sensação de perda. Ele deu o último nó e então caminhou em direção às grandes portas. Antes de entrar, olhou para Sam uma última vez…

A escuridão era densa, quase palpável, e se extendia como uma fera devoradora. O silêncio só era quebrado pelo som das botas do príncipe, que estalavam sobre as pedras enquanto ele caminhava lentamente, seu machado firme nas mãos, o elmo virando diversas vezes para observar os arredores. Com a luz que vinha da abertura delineou uma grande ante-sala, onde Golgor podia imaginar claramente seus antepassados, alguns caminhando vestindo túnicas, outros exibindo livros de capa metálica com o brasão de diversos deuses do povo das rochas. Mas o que mais lhe doeu foram as crianças. Em um instante sua visão o traiu e o trouxe de volta ao tempo presente. Em suas mãos havia um crânio, um pequeno crânio de uma criança anã. Há quanto tempo estaria ali? Décadas? Séculos? Ele achava que não. Era simplesmente recente demais.

Um ruído o fez sair de seus devaneios e Golgor correu para uma fenda entre as rochas, ao passar pôde ouvir diversas criaturas conversando no idioma das profundezas. Ele conseguiu distinguir apenas duas palavras: “Reino” e “Guerra”. Eram palavras simples e ele já as tinha escutado algumas vezes. Eles pareciam discutir sobre algum tipo de evento vindouro, o que o fez lembrar-se do conselho do homem que conduzia a carroça. Agora restavam apenas cinco luas.

Golgor percebeu que o lugar em que havia se metido era uma espécie de Salão da Guerra, onde mapas e armaduras envelhecidas teimavam em permanecer. O Príncipe então esfregou os olhos como se não pudesse acreditar no que via (e realmente não podia). Um fino faixo de luz esverdeada emanava da parede oeste, estava perto do horário do pôr do sol, mas o interessante é que ele surgira como um fio de barba e agora aumentava rapidamente sua intensidade, destacando a grande mesa ônix que havia abaixo dele. Parecia uma espécie de enigma.

A mesa era perfeitamente plana, composta por uma peça única de ônix que devia pesar mais de duas toneladas. Sobre a mesa haviam oito pequenos cubos: ametista, pirita, zinco, ouro, água-marinha, esmeralda, rubí e um cubo negro com veios dourados que ele não soube identificar com precisão, mas acreditou tratar-se de um cubo de adamantite, a base do adamante. Ao tocar na luz, cada cristal emitia sobre a mesa diversas informações, mapas, planos, sendo que cada lateral que era apontada exibia ainda caracteristicas únicas. A projeção ficava ainda maior quando o cubo em questão era posicionado no centro da mesa e ele logo percebeu que havia diversos escudos pendurados nas paredes sul e norte, cada um representando uma das casas anãs e sobre um grande trono na parede norte, havia o brasão de Gharraghaur, exatamente como aquele que o Príncipe trazia em seu medalhão.

Foi quando olhou para o grande trono que Golgor viu a luz diminuir sua intensidade, então o faixo tocou uma das faces do cubo que ele acreditava ser de adamantite e seu raio foi refletido diretamente sobre o trono. Naquele momento ele percebeu um velho anão que estava ali, sentado, observando silenciosamente. Quando o príncipe focou melhor sua visão e percebeu de quem se tratava, caiu de joelhos em reverência diante da figura. Rapidamente removeu seu elmo e refez a antiga forma de cumprimento que havia aprendido.

Sentado sobre o lendário Trono Adamante Imperial, o velho anão ergueu seu braço e tocou a própria fronte, com seus dedos indicador e médio, em seguida cerrou o punho e bateu três vezes sobre a região do coração, deteve-se ali por um instante e por fim segurou a própria barba e gesticulou como se a oferecesse ao jovem príncipe.

“Minha honra é sua honra, meu reino é seu reino… Levante-se!”

Os olhos de Golgor fitaram-no em toda a sua majestade e ele se ergueu. Tirando de suas costas o machado que herdara de seu pai, ele o posicionou aos pés do velho anão. Com um tom sublime, deu continuidade ao antigo ritual.

“Que minha lâmina nunca perca o fio, que nossas gemas durem para sempre e que o grande patriarca abençoe a todos, seja sob as fagulhas da Grande Forja ou nas entranhas da maior montanha.”

Disseram então em uníssomo:

“O último filho há de restaurar a glória de Kronum, mesmo que se partam nossos sonhos.”

O velho anão ergueu-se do velho trono ao mesmo tempo em que a luz esmaecia e caminhou em direção ao Príncipe caído que era Golgor, sentindo toda a sua angústia, seus receios. Tocou-lhe o ombro forte e em seguida puxou-o, deixando seus olhos frente a frente. Ainda que estivesse translúcido, o antigo Imperador ainda possuía uma força descomunal em seu espírito.

“Seja bem-vindo de volta ao lar, meu filho. Tenho esperado este momento por muito, muito tempo…”

[CONTINUA…]

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Uma resposta

  1. Legal cara! A ideia de escrever a mesa de RPG como um conto é sempre boa, não tem como ser ruim. Além disso, as histórias criadas durante o jogo são muito boas, e é um disperdício não compartilha-las com alguém.

    Com mais tempo, eu continuo acompanhando tudo oque vc escreveu.

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