:: Mastering VI ::

RPG Design – A Mágica do Acaso

Uma pedra solta faz com que o pé do oponente deslize, fazendo com que sua projeção potencialmente letal se transforme em um inofensivo tropeço antes que ele seja carregado pela maré da batalha.

O comandante experiente cai enquanto inspeciona as muralhas e quebra uma perna, desmotivando os guerreiros que em breve estarão defendendo estas mesmas muralhas e deixando as decisões de campo nas mãos de um tenente inexperiente.

Uma abertura momentânea nas nuvens deixa um raio de sol brilhar por um instante contra os olhos de um oponente, cegando-o momentaneamente. Por um curto – e fatal – momento, ele não é capaz de ver seu golpe para defender-se.

Hoje em dia isso seria o mesmo que dizer “opa!”, ou “que azarão!”, ou ainda “todo mundo se dá mal de vez em quando!”.

Essa não é a forma como a maioria dos povos ao longo da história teria visto estes sinais. Para eles, o que vemos como “acaso” era a constante intervenção de poderes sobrenaturais; aquele raio de sol era um sinal sobrenatural gritante de graça ou de ira. Afinal de contas, a vida do oponente não fora entregue em suas mãos?

A maior parte dos RPG’s tendem a reforçar sutilmente o ponto de vista moderno. Depois de tudo, apesar das diversas piadas sobre maneiras bizarras de fazer com que seus dados rolem da maneira que você deseja, eu ainda não achei um jogador que realmente acreditasse que qualquer força mágica verdadeira estivesse atuando sobre seus dados. Os personagens obtém êxito ou falham conforme suas decisões e habilidades no cenário a medida que interagem com os resultados aleatórios dos dados. A coisa mais próxima da noção clássica de “intervenção divina” na maioria dos jogos de interpretação ocorre quando o mestre manipula eventos – e isso, ao menos a princípio, não deve ser para favorecer nenhum personagem em especial.

É por isso que a noção de “Direito Divino dos Reis” é difícil de entender para a maioria das pessoas hoje em dia. A lógica por trás dessa idéia era bem simples na verdade:

  • É tão óbvio que chega a ser gritante que os poderes sobrenaturais intervêm constantemente, embora de maneiras sutis.
  • Todo mundo sabe que muitas pessoas querem chegar a uma posição elevada na hierarquia, mas muito poucas realmente conseguem.
  • Qualquer um que consiga, portanto, obviamente tem o apoio daqueles poderes sobrenaturais – do Deus ou Deuses locais – e quer estas entidades sejam poderes do bem ou do mal, não importa muito na verdade. Eles são DEUSES. A pessoa que ficar encarregada é, obrigatoriamente, aquela que eles QUEREM que fique no cargo.
  • Desafiar as decisões de um governante é, portanto, desafiar a vontade de Deus ou dos Deuses – que colocaram a pessoa que deverá transmitir os comandos que eles desejam para governar – e deve portanto ser punido por traição ao estado, blasfêmia contra os deuses e ofensa contra a ordem natural, que coloca todo o reino em risco.
  • Por outro lado, se você obtiver sucesso ao se rebelar, você terá acabado de provar que os Grandes Poderes não mais desejam o velho governante no poder; eles querem VOCÊ – e o antigo governante deve ter perdido a proteção daqueles poderes maiores e alguma punição realmente terrível lhe será infligida para aplacar sua ira.

Não era uma questão de “A Força traz Justiça”. Era o “Direito” – a vontade dos deuses – que era suficiente para sobrepujar qualquer oposição mortal. Nenhum homem seria capaz de fazer coisa alguma se a sorte estivesse contra ele. Os Grandes Poderes não deveriam ser negados. Para os devotos, o que quer que acontecesse estava necessariamente de acordo com sua vontade – e o melhor que qualquer homem mortal poderia fazer era tentar adivinhar a vontade dos deuses para segui-la da melhor maneira possível.

Quando não se compreendia as causas por trás dos caprichos do mundo e da matemática da coincidência, esta era uma forma perfeitamente justificável de se ver as coisas.

Mais tarde – embora ainda na pré-história – essa noção foi desenvolvida um pouco mais. O líder era freqüentemente um homem forte e astuto, para começar. Como líder, ele tendia a conseguir os melhores alimentos, mais descanso, melhores condições de vida, os melhores equipamentos e muitas outras pequenas vantagens. Ele estava melhor arrumado, geralmente mais saudável e obtinha sucesso com maior freqüência. A ele era oferecido aconselhamento e tempo para ponderar. Muitos destes benefícios extendíam-se até mesmo para sua família.

Como de costume, quando as causas eram numerosas, muito sutis, ocorriam a longo prazo e eram mal-compreendidas, causa e efeito tendiam a se tornar confusos. A maneira como a atenção dos servos e os impressionantes símbolos de liderança podiam alterar as impressões que alguém produzia tornavam as coisas ainda mais confusas.

Estava claro que tornar-se um Líder incorria em nobreza, sabedoria e saúde – e que um pouco dessa saúde se extendia àqueles em contato com o Líder. As noções de que os serviços sociais concediam poderes especiais, e de que o toque do Líder concedia saúde, passaram a fazer parte do léxico humano.

Por volta do tempo em que os Faraós começaram a governar o Egito essa noção se desenvolveu um pouco mais: era óbvio que os clérigos (shamãs ou qualquer que fosse o título local) tinham alguma influência com os Poderes. Aquele, afinal de contas, era seu trabalho. Crer em algo diferente era acreditar que os homens tinham pouca ou nenhuma influência sobre muitos dos elementos críticos em suas vidas e isto seria inaceitável.

Mas à medida que as áreas a serem governadas começaram a se expandir, os antigos métodos de estabelecimento da autoridade deixaram de funcionar. Um único homem poderia governar uma pequena tribo com sua postura e presença de espírito, e um grupo de tribos por meio de sua reputação – mas isto tornou a sucessão problemática e logo chegou ao seu limite. Era preciso algo novo para manter as pessoas unidas.
Religiões e clericatos formais eram uma solução durável. Um sistema comum de crenças não poderia segurar uma grande área unida – e quando os clérigos se tornassem envolvidos em afirmar um governante formalmente, isto passava aos escolhidos a autoridade dos poderes invisiveis por trás dele ou dela. Agora já não importava se um governante tinha “nascido para governar” ou não; poder e autoridade, frequentemente tanto sobre o visível quanto sobre o invisível, recaíam sobre seu cenho por meio de sua coroa. Eles eram abençoados e apontados por Deus ou pelos Deuses, que lhes concediam poder e autoridade para organizar o mundo de acordo com os ditâmes dos grandes poderes.

Eles eram MELHORES do que as outras pessoas. A eles era concedida grande sabedoria e uma conexão com a terra, além do poder do comando. Em muitos lugares eles eram vistos como os intermediários entre o mundo invisível e a humanidade – encarnações da terra e do povo. Dessa forma, quando o Faraó ascendece à imortalidade, ele carregaria consigo toda a sua nação.

É claro que quando a autoridade de um governante era parcialmente obtida através de uma divindade, isso significava que o estado precisava dar suporte e defender aquela fé – um sistema de unificação do poder religioso e temporal que funcionou tão bem que tornou-se um meio de organizar a humanidade por milhares de anos.

Infelizmante, a maioria dos governantes – ainda que “divinamente escolhidos” – parecia cair justamente nos mesmos erros habituais dos humanos. Aparentemente toda a sabedoria e aprovação divina não faziam qualquer diferença em suas vidas pessoais. É claro, países que prestassem atenção demais a este aspecto tendiam a iniciar uma guerra civil, perdendo suas conexões entre a religião e o governo com o qual estiveram unidos, e– frequentemente – eram engolidos e destruídos  por estados vizinhos que não haviam sido tão tolos.

Eventualmente, é claro, novas formas de organização da humanidade despontaram. Sistemas filosóficos, idéias como “direitos”, constituições, corporações e mais – assim as nações puderam começar a demonstrar as falhas no sistema de “Realeza por Direito Divino” sem desmoronar.

Ainda assim, como a maioria das coisas que se estende por longos períodos, como a construção social e sistemas de governo, o Direito Divino dos Reis FUNCIONAVA.

É claro que, se você quer que ele funcione em um jogo, a despeito das noções modernas dos jogadores, você terá que tomar algumas medidas especiais para que ele realmente funcione. Vamos ver se na próxima eu escrevo algo a respeito.

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